Em meio à crise dos Correios, agência tombada no interior de SP vira ponto de memória com 'ecossistema' próprio

  • 17/05/2026
(Foto: Reprodução)
Em meio à crise dos Correios, agência tombada no interior de SP vira ponto de memória É terça-feira e o Centro de Campinas (SP) pulsa. Na Avenida Francisco Glicério, os pedestres caminham apressadamente, lutando contra o tempo, sem notar que, a poucos metros, o relógio do edifício dos Correios marca uma época que já não existe mais. Em meio à crise da estatal, a edificação, inaugurada em 1948 e tombada como patrimônio histórico, resiste à modernização e parece ajudar a “bombear o sangue” que mantém a região central viva. Todos os dias, centenas de pessoas ainda passam pelo local. Nos quase 80 anos de existência, a agência passou de uma construção “monumental” para mostrar o avanço industrial da cidade a um retrato das transformações e das contradições da própria cidade. Detalhes arquitetônicos revelam o passado do local. O piso de mármore preto e branco, por exemplo, ainda exibe no centro uma estrela com a sigla “DCT”, que identificava o antigo Departamento de Correios e Telégrafos. A agência da Avenida Francisco Glicério é uma das sete tombadas pelos órgãos de patrimônio federal, estadual ou municipal em todo o estado de São Paulo. O processo de tombamento pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas (Condepacc) foi feito em 2010. Modernização A explicação para a importância do edifício começa antes mesmo da sua construção. Segundo o historiador Henrique Anunziata, ele faz parte de um projeto mais amplo de transformação urbana iniciado nos anos 1930, quando Campinas deixava para trás o perfil agrícola e tentava se consolidar como cidade industrial. Inspirado por ideias do urbanista Prestes Maia, o projeto previa a reorganização do Centro e a criação de vias capazes de sustentar o crescimento econômico. Foi nesse contexto que as avenidas Francisco Glicério e Campos Salles foram alargadas e ganharam protagonismo. “O Correio e o Telégrafo eram a representação do poder federal naquele momento. Você tinha o Judiciário, o Executivo municipal e, com o prédio dos Correios, a presença da União. Era uma forma de mostrar que o Estado estava ali, atuando diretamente na vida do cidadão”, explica Anunziata. Nada no prédio é casual. A escadaria ampla, o saguão imponente e os materiais nobres seguem a lógica monumental da arquitetura Art Déco. A própria disposição interna reforçava essa ideia: os funcionários trabalhavam à vista do público, como uma demonstração concreta da atuação estatal. Até o relógio na fachada tem função simbólica. Ele marca a transição de uma cidade de “tempo lento” para uma rotina mais acelerada, impulsionada pela industrialização. Um prédio, duas cidades Fachada antiga dos Correios na Avenida Francisco Glicério, em Campinas (SP) Museu da Imagem e Som de Campinas/Acervo fotográfico Hoje, o prédio continua de pé, praticamente preservado na estrutura, mas inserido em uma realidade completamente diferente. A industrialização que justificou a construção já não existe nos mesmos moldes, as ferrovias perderam espaço e a comunicação migrou para o digital. “O conceito permanece, mas a vivência é outra”, resume o historiador. “Antes, era o Estado presente. Hoje, é um prestador de serviços. E também um lugar de memória.” Do lado de fora, comerciantes acompanham, do mesmo ponto, as mudanças da região. Muitos criaram laços com funcionários e clientes, formando uma espécie de rede informal que sobrevive ao ritmo do centro. LEIA TAMBÉM: Estatal deixou de pagar compromissos de R$ 3,7 bilhões Correios admitem 'ciclo vicioso de prejuízos' com perda de clientes Há mais de três décadas no mesmo local, o vendedor de frutas Antônio Gomes da Silva vê de perto o vai e vem. “Todo mundo é bem. Todo mundo se dá comigo, me dou com todo mundo”, diz ele quando questionado sobre a relação com os funcionários do prédio. “Um ajuda o outro. Se precisar de ajuda, a gente ajuda eles. Eles ajudam nós. Dou fruta pra eles também, quando precisa. Tem uma fruta que tá meio madura, eu faço um suco, uma coisa e outra. Para não estragar, entendeu?” Para ele, o prédio ainda é essencial por concentrar movimento em um centro que, aos poucos, perdeu vitalidade. Hoje, o cenário é de menos circulação, mais lojas fechadas e uma presença crescente de pessoas em situação de rua. A escadaria monumental, antes símbolo de poder, virou abrigo improvisado. “O edifício mostra também uma falha do Estado contemporâneo”, avalia Anunziata. “Ele continua ali como símbolo, mas o entorno revela que muitas funções sociais não estão sendo cumpridas.” A vida ao redor da agência Piso de mármore preto e branco, por exemplo, ainda exibe no centro uma estrela com a sigla 'DCT', que identificava o antigo Departamento de Correios e Telégrafos Estevão Mamédio/g1 A poucos metros dali, Francisco Gomes da Silva observa a mesma transformação por outro ângulo. Há mais de 30 anos no local, ele chegou jovem e construiu a renda acompanhando as mudanças do Centro. Começou vendendo doces, passou pela Tele-Sena e hoje comercializa produtos variados. “O movimento era bom, vendia bastante. Mas foi mudando, mudando… acabou”, relembra. Assim como Antônio, ele aponta a tecnologia como um dos fatores dessa mudança. Com mais serviços digitais e aplicativos, menos gente precisa ir até o centro, e isso impacta diretamente as vendas. Mas o que realmente preocupa é o futuro. “Se fechar, fica pior. Aí tem que mudar de lugar", diz o vendedor. VÍDEOS: tudo sobre Campinas e região Veja mais notícias sobre a região no g1 Campinas

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2026/05/17/em-meio-a-crise-dos-correios-agencia-tombada-no-interior-de-sp-vira-ponto-de-memoria-com-ecossistema-proprio.ghtml


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