Tecnologia que usa IA para identificar riscos em barragens e poluição sonora é apresentada em evento no interior de SP
23/09/2026
(Foto: Reprodução) Conheça tecnologia que usa IA para identificar riscos em barragens e poluição sonora
Pesquisadores brasileiros e alemães apresentaram na terça-feira (22), em Sorocaba (SP), uma tecnologia inovadora que utiliza inteligência artificial e sensores acústicos para monitorar riscos em barragens e combater a poluição sonora.
O sistema é capaz de captar sons e transformá-los em dados, diferenciando ruídos como o de caminhões, motocicletas, obras ou até explosões em áreas urbanas. A proposta é identificar a origem, a localização e o momento em que determinado barulho ocorre, oferecendo uma nova forma de vigilância além de câmeras e sensores físicos.
📲 Participe do canal do g1 Sorocaba e Jundiaí no WhatsApp
O encontro realizado na UniFacens destacou aplicações já em desenvolvimento no Brasil e na Alemanha, reforçando o potencial da IA para aumentar a segurança e melhorar a qualidade de vida em ambientes urbanos e industriais.
LEIA TAMBÉM
Toyota reabre fábrica de Porto Feliz um ano após destruição por vendaval
De Roberto Carlos a trilhas da TV: baterista autista supera limites e faz carreira na música
Pesquisadora do instituto alemão Fraunhofer IDMT, Sandra Cristina Brix
Divulgação/UniFacens
Som para monitorar barragens e desastres
Uma das aplicações discutidas durante o encontro envolve o uso de sensores acústicos no monitoramento de barragens e situações relacionadas à defesa civil. A tecnologia também é estudada para acompanhar chuvas intensas, precipitações e possíveis deslizamentos.
Ao g1, a pesquisadora do instituto alemão Fraunhofer IDMT, Sandra Cristina Brix, que trabalha há 25 anos na área de acústica, explicou como a tecnologia combina processamento de sinais e inteligência artificial. A ideia é que os dados sejam obtidos em tempo real e possam indicar onde e o que está acontecendo.
“Podemos adaptar para o Brasil e ajudar nesse processo. No monitoramento de ruído urbano e também no monitoramento de precipitação de chuvas fortes. […] Isso funciona sempre depois da captação dos sinais acústicos e identificação dos espectros”, explica.
Os modelos de inteligência artificial são usados para identificar a fonte do som, localização e o momento em que o fenômeno ocorre. “Os modelos de inteligência artificial que a gente usa [servem] para saber que tipo de fonte é, onde ela ocorre e ter uma avaliação espacial, temporal dessas informações todas”, completa Sandra.
A tecnologia também é estudada para o monitoramento de chuvas fortes e situações relacionadas a possíveis desastres. A ideia, segundo a pesquisadora, é utilizar estruturas já existentes para coletar informações em tempo real.
“A nossa ideia e visão é trazer aquilo que a gente tem na Alemanha aqui para o Brasil e aumentar a qualidade de dados utilizando a infraestrutura que já existe aqui também de módulos fotovoltaicos para a gente adquirir os mesmos resultados", explica Sandra.
Segundo a pesquisadora, ainda não há uma previsão de quando essas tecnologias serão aplicadas de forma mais ampla no Brasil. Atualmente, existem articulações entre universidades, empresas e instituições interessadas em adaptar as soluções às necessidades brasileiras.
IA identifica origem do barulho
No ambiente urbano, os sensores podem funcionar como uma espécie de “ouvido inteligente”. Ealém de medir a intensidade do som, os sistemas podem identificar qual é a fonte do ruído. Marcelo Sando, filósofo e criador do projeto DESPOLUIÇÃOSONORA, explica que sensores podem fazer um monitoramento contínuo e utilizar inteligência artificial para classificar diferentes tipos de sons.
“O que a gente consegue hoje com sistemas de monitoramento é que você tem sensores que estão monitorando 24 horas por dia o ruído. E eles conseguem fazer uma classificação do tipo de ruído a partir de sistemas de inteligência artificial. Então, é possível entender se o ruído é de música em um bar, ou o ruído está vindo mais de caminhões e ônibus, ou de escapamento de moto, ou se o ruído está vindo de explosões", conta.
Evento internacional em Sorocaba discute uso de IA para identificar riscos em barragens e poluição sonora
Divulgação/UniFacens
A principal diferença em relação aos métodos tradicionais de fiscalização está na possibilidade de acompanhar o ruído de forma contínua. A tecnologia entra como uma opção para não depender exclusivamente de uma denúncia ou de uma equipe estar no local no momento da ocorrência, sensores podem atuar gerando informações permanentes sobre o ambiente.
“Tem como a gente começar a fazer esse monitoramento de uma forma que não era possível há pouco tempo atrás. Fazer essa classificação para planejamento urbano de acordo com as necessidades. Então, uma fiscalização automática do ruído seria algo extremamente importante", afirma o criador do projeto.
Segundo ele, os dados poderiam ajudar o poder público a entender quais são as principais fontes de ruído de determinada região e em quais horários elas acontecem. A partir disso, as informações poderiam ser utilizadas no planejamento urbano e na fiscalização.
O funcionamento de sistemas já é utilizados em outros países. Na Espanha, estabelecimentos que utilizam equipamentos sonoros podem instalar limitadores de decibéis que reduzem automaticamente o volume quando o limite estabelecido é ultrapassado.
"O próprio bar instala na caixa de som um equipamento que, se o DJ aumenta o volume, a caixa de som abaixa automaticamente para o limite. Estamos hoje, contando muito com o comportamento das pessoas para regular o som. E o que a gente precisa é usar a tecnologia para a gente não depender só de uma questão cultural", afirma
Tecnologias nas salas de aula
Parte das pesquisas já é desenvolvida dentro da própria UniFacens. Segundo o diretor de pesquisa e inovação da instituição, Rodolfo Ribeiro da Silva, o campus possui sonômetros e um grupo de pesquisa voltado à aplicação de inteligência artificial em sons.
"Temos no campus tecnologias acústicas com sonômetros espalhados para vários tipos de entendimento de sons dentro da estrutura do nosso campus. Temos um grupo de pesquisa também aqui dentro da instituição que estuda especificamente o assunto, a aplicação de inteligência artificial em som, olhando para as questões urbanas como disparos de armas de fogo, ambulância, sirene, mas também olhando questões relacionadas à defesa civil, como as barragens, chuva, precipitação e etc", conta.
Diretor de pesquisa e inovação da instituição, Rodolfo Ribeiro da Silva
Divulgação/UniFacens
A proposta da instituição é ampliar as parcerias e levar as pesquisas para diferentes realidades urbanas.
“A ideia é expandir com novas parcerias e estimular que outros estudantes daqui, de outras universidades, também possam participar. Isso não é um assunto só de engenharia, não é só um assunto de tecnologia da informação, mas um assunto que envolve várias áreas do conhecimento", completa.
A reitora da universidade, Thaís Barros Beldi, conta que sediar o encontro reforça a proposta da instituição de discutir soluções voltadas às cidades inteligentes e destaca a parceria com o Instituto Fraunhofer, da Alemanha, que já mantém projetos de mobilidade e estágios pagos para alunos da universidade.
A universidade também prepara a instalação de sonômetros em pontos do campus com maior concentração de ruído, em parceria com a Splice. Atualmente, o local possui mais de 270 sensores.
“A intenção nossa é que o campus seja um Living Lab (laboratório vivo) mesmo, um espaço de experimentação, tanto de projetos de alunos como empresas e soluções de empresas que estão aqui”, explica Thaís.
Política de despoluição sonora
Além da aplicação tecnológica, o evento colocou em discussão a própria forma como o Brasil trata a poluição sonora. Os pesquisadores apontaram que existem diferentes normas e legislações relacionadas ao tema, mas elas estão espalhadas entre diferentes áreas.
“Hoje a poluição sonora é considerada pela Organização Mundial da Saúde como o segundo fator de risco ambiental mais prejudicial para a saúde humana. Está na frente até da poluição da água. E ela não é tratada hoje no Brasil com a seriedade de que o tema merece", diz Marcelo Sando.
Segundo ele, países como Japão, Alemanha e Espanha possuem legislações específicas sobre controle de ruído há décadas. No Brasil, ele afirma que ainda não existe uma política nacional de despoluição sonora.
Marcelo Sando, filósofo e criador do projeto DESPOLUIÇÃOSONORA.ORG
Divulgação/UniFacens
“O Brasil está muito atrasado nesse sentido. A legislação de poluição sonora do Japão é de 1968. A da Alemanha é de 1974. A da Espanha é de 2003. E até hoje o Brasil não tem uma política nacional de despoluição sonora, de controle de ruído".
A discussão sobre a legislação ocorre também em um momento de mudança na interpretação jurídica da poluição sonora. Em 2025, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu, que o crime previsto na Lei de Crimes Ambientais tem natureza formal e configura a potencialidade de dano à saúde humana e não precisa provar que o barulho ensurdeceu alguém, basta ultrapassar os limites legais para caracterizar a infração.
Política de privacidade
A utilização de microfones em espaços públicos também levanta a questão de como identificar o barulho sem transformar o sistema em uma ferramenta de vigilância. O pesquisador explica que o sensor é capaz de identificar tiros, explosões, veículos ou música também pode captar conversas. Por isso, uma das possibilidades discutidas é fazer com que o equipamento classifique o som sem armazenar o áudio original.
Na prática, um sistema poderia identificar que determinado ponto registrou um ruído compatível com uma motocicleta, uma explosão ou uma obra, por exemplo, sem armazenar continuamente as conversas e demais sons captados no ambiente.
A preocupação com privacidade, porém, não desaparece apenas porque o áudio não é armazenado. A implantação de sistemas desse tipo exige definição sobre quais informações serão coletadas, para qual finalidade, quem poderá acessá-las e por quanto tempo serão mantidas.
UniFacens
UniFacens/Divulgação
Initial plugin text
*Colaborou sob supervisão de Eric Mantuan
Veja mais notícias da região no g1 Sorocaba e Jundiaí
VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM