Amarração amorosa: entenda o suposto trabalho pelo qual vice-prefeita afastada pagou R$ 41 mil
23/06/2026
(Foto: Reprodução) Vice-prefeita é denunciada por usar verba pública para contratar mãe de santo
A vice-prefeita de Ribeira (SP), Juliana Maria Teixeira da Costa (MDB), foi afastada do cargo após ser denunciada por desviar R$ 41,2 mil dos cofres públicos para pagar uma suposta amarração amorosa. Ao g1, a Associação Nacional das Religiões Afro-Brasileiras (FNAB) afirmou que o termo costuma circular no imaginário popular, mas controlar a vontade de terceiros não é compatível com a ética.
De acordo com o Ministério Público de São Paulo (MP-SP), Juliana teria desviado a verba pública para contratar uma mãe de santo e, assim, afastar Lauro Olegário da Silva Filho, então coordenador municipal de Saúde, da esposa dele.
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Segundo a promotoria, o desvio foi feito por meio de uma empresa contratada para prestar serviços à prefeitura. Além de Juliana, o MP-SP denunciou Lauro e Willian Felipe da Silva, proprietário da empresa W.F. A equipe de reportagem tenta contato com a defesa dos três.
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Ao g1, a mentora Samantha informou anteriormente que Juliana contratou o serviço por R$ 380 mil, mas pagou apenas R$ 41,2 mil -- valor apontado pelo MP-SP como desviado dos cofres públicos.
"Ela queria a dominação amorosa, afastamento de rival e adoecer a esposa do amante [Lauro] dela. Queria um trabalho que se chama casamento espiritual definitivo", disse Samantha à época. E continuou: "O valor do trabalho ficou R$ 380 mil. Expliquei para ela que era um sacrifício muito forte, que a espiritualidade ia dar ele por inteiro para ela".
Trabalhos espirituais
Ao g1, a sacerdotisa de Umbanda e presidente da FNAB, Carol Módolo, afirmou que não deve ser reconhecido como prática das tradições afro-brasileiras qualquer trabalho espiritual destinado a dominar a vontade de alguém, obrigar uma pessoa a amar outra, separar famílias, adoecer ou interferir de forma violenta na vida afetiva de terceiros.
Juliana Maria Teixeira da Costa, vice-prefeita de Ribeira (SP), foi denunciada por usar R$ 41,2 mil de verba pública para pagar 'casamento espiritual'
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"Do ponto de vista ético, nenhuma liderança religiosa responsável deve prometer controle sobre a vontade de outra pessoa. Não há como garantir, comprovar ou vender resultado espiritual sobre o sentimento, a saúde ou a vida de terceiros", destacou a presidente.
Carol destacou que, quando esse tipo de promessa é feita, principalmente mediante cobrança de valores altos, a prática pode se aproximar da exploração da crença, do abuso de confiança ou até do que é popularmente chamado de estelionato religioso.
Segundo Carol, esse tipo de abordagem costuma atingir pessoas em situação de vulnerabilidade emocional. Por este motivo, é necessário desconfiar de promessas de "amor garantido", "dominação" ou "adoecimento de rival".
Vice-prefeita de Ribeira (SP) foi denunciada pelo MP por suposto repasse de R$ 41 mil para 'casamento espiritual'
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Valores
A presidente destacou que a cobrança por atendimentos, trabalhos religiosos ou consultas espirituais pode existir dentro das religiões afro-brasileiras, assim como existem contribuições, doações voluntárias e formas de manutenção em diversas tradições religiosas.
"Isso, por si só, não é irregular nem deve ser usado para atacar as religiões afro-brasileiras. Mas é fundamental dizer com clareza: o valor de R$ 380 mil [...] está completamente fora da realidade da imensa maioria dos terreiros brasileiros", ressaltou Carol.
Ela afirmou que o valor não corresponde ao cotidiano das casas sérias de Umbanda, Candomblé e demais tradições afro-brasileiras, que costumam enfrentar dificuldades para manter aluguel, alimentação, materiais religiosos, contas básicas, atividades comunitárias e assistência espiritual.
"Casas sérias de Umbanda, Candomblé e demais tradições afro-brasileiras não existem para incentivar obsessão, vingança, posse afetiva ou dano contra terceiros. Elas acolhem, orientam, fortalecem espiritualmente, cuidam da comunidade e preservam valores", finalizou.
Preconceito
A FNAB afirmou ver o caso com preocupação e defendeu que não se deve associar uma denúncia individual a toda uma tradição religiosa. Segundo a entidade, nem sempre há comprovação de que a pessoa apontada como mãe ou pai de santo tenha, de fato, trajetória religiosa reconhecida, casa constituída, comunidade ou vínculo real com as tradições afro-brasileiras.
"A FNAB defende uma apuração rigorosa dos fatos, e um debate público que não transforme a investigação de uma pessoa em instrumento de perseguição religiosa contra toda uma coletividade. Racismo religioso também é crime", disse a associação.
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